Há uns tempos, tive uma cliente na casa dos sessenta que dizia sentir-se sufocada pelo excesso de zelo do marido.
Queria que ela estivesse bem e que não corresse nenhum perigo. Inclusive, quis saber quem eu era, para garantir que a mulher estava segura. Como um pai que protege a sua filha.
Mas ela já não podia mais.
Sem entrar em pormenores, tivemos algumas sessões em que a minha cliente passou por várias fases da sua vida, por ausências e presenças. Por medos e inseguranças. E portos de abrigo.
Até que chegou o dia, em que me contou que tinha apanhado um susto na rua. Ia sendo assaltada, mas conseguiu segurar na carteira a tempo e o homem fugiu.
Quando chegou a casa, estava nervosa.
o marido deu-lhe um abraço tamanho que a fez tomar consciência de que ali era a sua casa. Confessou-me que o abraço do marido eea um colo aconchegante que lhe fazia falta, porque guardava um amor profundo, honesto e protetor.
Então compreendeu que era ali que queria ficar. A comunicação iria pôr tudo no lugar, para que resolvesse o que a sufocava, sem perder o que tinha de tão valioso
E aprendi que a vida é assim, cheia de nuances que justificam a nossa história. E que não há nada mais curador do que um abraço apertado, demorado e sentido.
Não voltou mais à minha sala.
E, secretamente, mandei-lhe também um abraço dos meus, de despedida.
E sei que ela o recebeu.
