Aprendi, enquanto escrevia um capítulo da história de vida que tenho agora em mãos, que a rotina que antes nos irritava, torna-se estrutura mais tarde.
Quando era pequena, tive uma tia avó que todos os natais nos levava um ananás e um pão de ló de Rio Maior. Os presentes também não tinham surpresas: cuecas e meias.
Era sempre igual.
Às vezes riamos, outras sentíamos irritação e, dependendo do ano ou da idade, uma inevitável tristeza.
A verdade é que, com ela, também vinha a cumplicidade com os irmãos e a azáfama de uns natais que já não podem voltar, porque quase todos os participantes partiram: os meus pais, esta tia, os caseiros da quinta que nos ofereciam pão feito por eles e filhoses.
A nossa história fica mais rica com esta diversidade de personagens que nos moldaram e que hoje recordamos entre irmãos, com alguns risos e memórias particulares que se tornam vivas. E apercebo-me também que uma memória partilhada também é estrutura.
Porque há sempre um momento em que sublinhamos as histórias que nos fazem sorrir. E, quando isso acontece, a nossa vida ganha sentido. E com sentido, a serenidade é a nossa recompensa.
Volto agora à escrita, motivada por esta empatia que aconchegou, no presente, o meu passado.
