A sua vida corria normalmente para a já avançada idade. Mexia-se com dificuldade, dores aqui e ali, mas nada disso a demovia de receber a família e amigos, com requinte e pormenores que faziam com que os outros se sentissem especiais.
Juntamente com o marido, faziam o par mais apaixonado que eu já vi em toda a minha vida. Andavam quase sempre juntos e raramente estavam muito tempo no mesmo sítio. Em viagem ou em casa, demonstravam uma cumplicidade e boa disposição invejáveis.
Vieram os filhos, depois os netos e mais recentemente, uma bisneta. E nunca deixaram de ser uns eternos românticos. Ela adorava mimar o marido, mas não se ficava por aí. Deixava chocolates nos quartos dos netos, estava bem presente na vida dos filhos e ouvia todos com atenção e respeito. Falava rápido, mexia-se ainda mais rápido e punha toda a gente a mexer. Era a organização em pessoa.
Para além de tudo isto, era imensamente criativa.
Recordo os jantares que ela organizava anualmente, exclusivo para as filhas das amigas.
A regra era irmos vestidas como senhoras. E nós, crianças pequenas, adorávamos aqueles encontros em que uma adulta entrava na nossa fantasia de sermos mais velhas, termos jantares, pormos batons, colares e malas de mão. E ela recebia-nos com copos altos que enchíamos de groselha, a côr que mais se parecia com vinho. Lambuzávamos as mãos com entradas deliciosas, variadas e cheias de côr.
Nesse dia não ajudávamos em nada. Eramos ilustres visitas e durante toda a noite mantínhamos os papéis. Sentíamo-nos rainhas
Era assim que ela fazia, criando histórias vivas, em que todos as personagens eram principais. Gostava de observar, disfrutar, rir, receber, deslumbrar. E estava sempre pronta para uma boa conversa que não dispensava nem profundidade, nem franqueza.
Durante o ano que passou, ela e o marido resolveram escrever a sua história de vida em livro.
E que vida! Imagino o quanto viajaram, recordaram, riram ao longo das várias páginas que iam fazendo nascer. Pormenores que só eles saberão. Um trabalho desse tipo resulta inevitavelmente numa pacificação e orgulho do muito que semearam, viveram e recolheram ao longo dos anos.
Conseguiram acabar o livro a tempo de oferecê-lo no Natal à família. Família essa, toda reunida de uma forma que não acontecia há uns anos. Sei que estava tão feliz nesse dia. Tão bom quando o amor dá frutos e daqueles bem saborosos.
Cozinhou, abraçou, disfrutou. Acredito que tenha sido um dos Natais mais felizes da sua vida. Curiosamente, eu própria escrevi sobre este casal tão querido na mesma altura, sem saber de nada disto. (republicarei aqui, oportunamente.) Homenagens, reencontros, afetos a preencher todos os recantos do seu coração.
E de tanta emoção, o cansaço foi tomando conta dela. E assim, tão rápido como foi sempre o seu ritmo, caiu para o lado e não mais acordou.
Então aprendi que se pode morrer de felicidade. Haverá melhor forma de partir? Com ela aprendi ainda a importância de cuidarmos de nós para que aquilo que oferecermos aos outros seja construtivo, bonito e luminoso.
Alguém disse que só morremos quando deixarem de falar de nós. Acredito que isso só acontece quando permitimos que a nossa vida seja vivida em vão. Cabe a nós tornarmos os nossos dias especiais, como ela sempre fez enquanto cá esteve.
Também por este testemunho, escrevo hoje histórias de vida. Para que aqueles que permitiram que existissemos nunca sejam esquecidos.
A Tia Maria Emília é um desses casos. Que este texto a perpetue para lá da família. E também ao queridíssimo tio António que também partiu entretanto.
