Uma das pessoas mais importantes da minha infancia, morreu quando eu tinha 6 anos.
Recordo-a como alguém marcante, paciente, carinhosa, estruturante e atenta. No entanto, existem outras versões da mesma pessoa que a retratam como fria, distante e conflituosa. São muitas as histórias de quem a conheceu bem e que chocam com a imagem que guardo comigo, na intimidade do meu coração. Senti literalmente os meus afetos violados e as memórias assaltadas.
Terei inventado uma pessoa que não existiu? Ou será que puxei pelo melhor dela e conheci o que poucos tiveram o privilégio de o fazer? Porque não somos sempre os mesmos com toda a gente. E uma criança na hora certa, amolece um coraçao sofrido, desiludido e com vontade de ser diferente. Acredito que tenha sido assim, por isso, recuso-me a substituir as minhas mesmórias pelas más experièncias dos outros.
Se existissse a história desta familiar escrita, iria compreender o que me liga a ela e o que a afastava dos outros. Seria a versão de quem já não está cá, a partir de um lugar que não permitiria julgamentos. Ou, pelo menos, o lado humano de uma pessoa que provavelmente foi desajeitada na manifestação dos seus afetos. Afinal, também somos parte desta pessoa, toda a familia.
Também por isto, são terapêuticas as histórias de vida: A pessoa pacifica-se consigo ao contar e ler a história na terceira pessoa, e o resto da família passará a ter um testemunho que vai ser ouro no momento certo, longe dos envolvimentos emocionais de quem com ela lidou. Ou, a existir ainda esta descendência direta, já estará suficientemente distante e madura para compreender, integrar e pacificar as suas recordações.
Da minha parte, e por nao existir esta história escrita, aconchego como posso as minhas memórias. Sou eu que as escolho. E lamento não saber mais, muito mais. É o que há. Fico com o que tenho. E devolvo o que não me pertence.
Terapia das histórias de vida.
Uma sessão = um história escrita.
Cinco sessões = um livro.
