Um segurança nada invisível.

Não há nada mais maravilhoso do que fazer a diferença na vida de alguém. Sobretudo se esse alguém fez diferença na nossa vida.

A gentileza muitas vezes passa despercebida no mar de preocupações em que parecemos estar constantemente mergulhados. Mas reparar nela, puxar por ela, valorizá-la e reconhecer quem nos trata bem, faz milagres pelas nossas vidas. E conseguimos transformar um dia mau num dia francamente especial.

Foi o que aconteceu comigo recentemente.

Numa das minhas muitas idas ao supermercado, reparo no segurança.

Um homem alto, entroncado, não deve ter mais de cinquenta anos, negro e com um olhar extremamente meigo. Discreto, mas prestável, não se mostra especialmente sorridente. Ajuda nas caixas self-service, mostrando-se atento e corrigindo qualquer sinal de alerta que este tipo de caixas desencadeia, quase por tudo e por nada.

Fá-lo tão rapidamente que nós, os clientes, nem temos tempo para barafustar. À conta deste tipo de atitude, nunca vi ninguém naquele supermercado maldisposto ou a levantar a voz.

Competente e firme, mostra-se acessível, sem contudo resvalar para a familiaridade, o que o torna uma pessoa necessariamente respeitada.

Notei que gosto de o encontrar por lá nas minhas idas às compras. Sinto-me curiosamente mais segura e qualquer tristeza que possa sentir, fica como que atenuada.

Este segurança faz toda a diferença naquele supermercado.

Um certo dia, resolvi fazer-lhe uma homenagem nas redes sociais.

Identifiquei o supermercado e a zona, de modo a que não restassem dúvidas de quem se tratava. De imediato recebi comentários de pessoas do bairro que aproveitaram a chamada de atenção para também elas o destacarem.

Mas as surpresas não ficaram por aqui.

Ao confessar ao segurança o que tinha feito, os olhos dele brilharam de surpresa e de alegria. Não esperava que ele frequentasse as redes sociais, talvez por preconceito meu. E por isso lhe deixei uma cópia do meu texto no facebook.

A verdade é que ele entrou na minha página, encontrou o post, agradeceu por baixo e tornou seu aquele meu cantinho virtual.

Naquele instante, o “segurança” passou a ter um nome: Manuel. Outros comentários começaram a surgir.

E um deles, o mais valioso de todos, aquele que me comoveu, dizia o seguinte: “Que orgulho, pai!”

Passados um tempo, dirijo-me ao supermercado e lá encontro o meu novo amigo:

“Boa tarde, Sr. Manuel”.

“Como está, D. Sofia?”.

Sorrio. Vejo-o mais alegre, mais seguro. O seu rosto esboça um sorriso. E logo retoma a sua postura tímida, mas sempre compenetrada.

Os olhos, esses, brilham mais do que nunca. E essa luz, tenho a certeza, mais ninguém vai conseguir apagar.

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