Quando a morte se mistura com a vida para a reacender.

Voltámo-nos a ver depois de exatamente vinte anos, como a F. tão bem lembrou.

Ela é a super organizada e tem datas e nomes de grupos de WhatsApp bem registados na sua memória, mesmo o nosso, tão antigo que já nem o meu telemóvel o reconhece. Fomos três no mesmo carro para o velório do marido de uma amiga do grupo. Realizei que também a essa amiga já não via há seguramente uns dez anos.

Todas nós, mais os que não puderam ir, seguimos caminhos diferentes. Mas numa altura destas, não faltámos a chamada.

E o tempo parou.

Então fiquei a pensar na ironia do destino. Como a partida de alguém pode ser chão para a alegria de um reencontro. Como se a tristeza fosse abraçada pelos laços de um passado que um dia foi sólido.

Então a morte mistura-se com renascimento e memórias vivas que voltam a ser regadas. Choram-se as ausências e celebram-se as presenças. Porque há abraços que estreitam almas e acordam o tempo, como um colchão de penas no inverno duro.

Marcámos um almoço para breve. Então apercebi-me que a morte pode trazer também a beleza das pegadas que um dia desenhámos com outros. Quem sabe se não será esse o seu presente: a mão que nos empurra para a percepção de que ainda estamos por cá e a vida sempre arranja forma de continuar.

Posso a nossa querida amiga ter sentido esse aconchego na sua dor. Porque já não a vamos mais largar.

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