Ousou separar-se numa altura em que o divórcio era uma vergonha. Simplesmente não aturou os ciúmes doentios do meu avô, nem as suas constantes aventuras. Ousou abandonar o estatuto de mulher do médico da vila e uma vida confortável, e partiu com a minha mãe pela mão, rumo à casa materna.
A minha bisavó, de alta sociedade e avançada para a sua época, dava festas maravilhosas, foi das primeiras mulheres a usar calças, a fumar e teve esta filha fora do casamento. Apesar de tanto, a minha avó teve de arranjar um trabalho como secretária para manter a minha mãe, pois não contou com a ajuda que previa da sua.
Por essa altura, colocou-a num colégio interno, lugar para onde iam as meninas de família para terem uma educação exemplar e pediu ao meu avô que assegurasse as despesas. Foi a hipótese que ele teve de se vingar, aproveitando para virar a cabeça das freiras. E esta mãe não mais pôde ver a filha, então com 10 anos.
Depois disso teve mais dois filhos de um grande amor antigo, um deles deficiente. Esse amor morreu poucos anos depois nas mãos da PIDE. E foi nas explicações que teve de dar para sobreviver que conheceu o homem que a acompanhou até ao final da vida, vinte anos mais novo. Por amor, abdicou de ter filhos e assumiu como seus os dois da minha avó.
Foi esta família que conheci, quando a encontrei pelos meus 24 anos.
Sorridente, moderna, bonita e suave, ninguém diria o quanto já tinha passado na vida. Dona de um negócio de roupa que movia toda a família, mal lhe dava para viver. Longe iam as festas e o glamour da casa da sua mãe e dos tempos de casada. Adaptou-se com dignidade aos desafios da vida e nunca deixou que o coração azedasse. Eu e a minha irmã ouvimos a sua história, com um chá e muitas fotografias de um passado que não conhecíamos.
E diante do meu fascínio por esta foto em particular, ofereceu-ma, com a promessa de nos fazer outras cópias de outras fotos. Não aconteceu. Foi a última vez que a vimos. Partiu pouco tempo depois.
A foto da minha avó acompanha-me desde então para todas as casas onde já vivi e sempre em lugar de destaque. Não por ter com ela convivido, mas pela energia que guarda de coragem e suavidade diante dos desafios. Terá sido feliz, apesar de tudo? Terá valido a pena? O sorriso dela escondia uma tristeza misturada com um brilho de alguém que aprendeu que a vida são momentos. E o reencontro com este passado deixou-a verdadeiramente apaziguada. Quanto ao que lhe ia no fundo da alma, só ela saberia responder.
Aprendi com a minha avó que, aconteça o que acontecer, que nunca nos falte cantinhos onde nos possamos fortalecer. E amor para nos alimentar. Um testemunho de resiliência numa época de desafios.
