A primeira vez que vi a Ana, vestia umas calças bem curtas brancas, uma t-shirt com lantejoulas, braços nus onde brilhavam várias pulseiras de metal, vários anéis e umas unhas impressionantemente compridas e pintadas de um azul vivo.
Isto não seria de assinalar, se Ana não estivesse na casa dos sessenta e muitos anos.
O seu cabelo, de um loiro quase amarelo, era o toque que faltava neste quadro extravagante, algo caricato.
Ana era a imagem da exuberância.
A vida deu-me a oportunidade de a conhecer melhor.
E do riso misturado com surpresa que me causou a primeira impressão, passei à fase seguinte: a curiosidade.
Ana tinha feições delicadas e um sorriso extremamente doce. Falava baixo e os seus olhos bonitos mostravam uma vivacidade que não desiludiam as palavras.
“Não haveria necessidade de tanta extravagância”, pensei. Mas o que vim a descobrir deu outro sentido a este quadro.
Ana casara muito nova com um grande amor. Teve dois filhos.
Mas cedo, o homem por quem se encantara, começou a revelar-se violento.
Ciente de que tinha ao seu lado uma mulher bonita, proibiu-a de sair à rua maquilhada e arranjada. Autorizava-a a trabalhar, mas controlava as suas relações. Assinava-lhe a sola dos sapatos para saber onde ela ia.
E aos poucos, o seu comportamento foi ficando cada vez mais doentio.
Ana foi-se deixando ficar neste inferno, por medo e também porque queria garantir aos seus filhos uma família unida. Mesmo que essa união fosse a cuspo.
Até que, a uma certa altura da sua vida, acontece uma tragédia. Um dos seus filhos morre num acidente.
Após uma longa depressão que a atirou para a cama, Ana ergueu-se e tomou uma decisão. Em memória do filho que partira, decidiu honrar a curta vida dele dando mais sentido à sua.
Já reformada, decidiu enfrentar o marido. Disse-lhe que a partir daquele momento iria ser a pessoa que queria ser e que ele não a iria mais impedir. E essa era a condição para continuar ao seu lado. Caso contrário, partiria sem qualquer remorso.
O marido, apanhado de surpresa, acabou por ceder. Ela então mais forte, ele surpreendentemente frágil.
Sabendo da sua história, olho-a com um misto de admiração e tristeza. Admiração pela coragem e pela afirmação. Por ter virado o jogo a seu favor, criando as regras que bem entendeu. Pela doçura do seu olhar. Pela generosidade das suas ações. Pelo seu enorme sentido de humor.
E tristeza, por tudo isto se ter dado tão tarde. Não tarde demais. Nunca é tarde demais para sermos felizes. Mas há um tempo que não se recupera.
E fez-me pensar que tantas vezes deixamos arrastar a nossa vida por águas há muito mortas. Obrigamo-nos a não sentir por pura sobrevivência. E tudo isto em nome de quê? Será que precisamos sempre de uma bomba para acordarmos? Será que não podemos, enquanto é tempo, encarar as nossas apatias e cuidar delas?
Pequenos passos são grandes decisões. E encontramos um espaço novo, para lá dos nossos desgostos. As vezes mais vale uma peça nova do que estilhaços colados a medo, sempre em risco de voltarem a partir.
Olho para aquela mulher e percebo que a tristeza é minha. Não dela.
Ela está livre. A tristeza mistura-se agora com esperança.
Não, não é tarde para agitarmos as nossas águas. Dar um novo sentido ao nosso tempo. Levantar a cabeça. Agarrarmos no relógio da vida e tomar decisões. Somos muito mais capazes do que aquilo que julgamos.
E a vida está aí para ser vivida. Com maior ou menor estravagância, não importa. Importa sim é que tenha as cores que lhe quisermos dar.
Encantadora Ana, obrigada por esta incrível lição de liberdade.
