A história de Melinha, uma vida guiada pelo Amor.

Todas a conhecem por Melinha, embora o seu nome de batismo seja Amélia.

E nem me atrevo a chamar outro nome, porque não só não sai, como não se ajusta a uma mulher que nada tem de vulgar.

Melinha é a prova de que existem anjos.

Nicha, uma dos seus três filhos, diz que não se aprende a ser como ela. Nasce-se assim, a saber amar de uma forma incondicional. Mas de uma forma incondicional mesmo.

Oiço o que não recordo da sua história através da filha.

 Porque com ela, já não posso ter as longas conversas que tinha em criança, num almoço que fazíamos todos os anos nas férias de Verão, quando estávamos juntas. Durante vários anos que terminaram algures nos meus dezasseis ou dezassete, tínhamos aquele almoço, tão especial para mim, onde o tempo e a idade pareciam não existir.

Melinha contava-me tantas e maravilhosas histórias, falávamos de tudo e de nada. Sem grandes profundidades. mas sem, contudo, entrarmos na banalidade.

Isto enquanto circulavam pela casa crianças, negras e brancas, sem que eu me lembrasse de perguntar quem eram. Nem Melinha sentia necessidade de me explicar.

Era assim. Ela tornava tudo tão natural e por isso qualquer pergunta me pareceria despropositada.

Melinha nasceu no seio de uma família simples, onde as dificuldades económicas eram permanentes. Cresceu com os seus pais e um irmão mais velho.

Durante os seus primeiros anos, Melinha viveu um verdadeiro inferno. O seu pai, alcoólico, era extremamente violento. Sempre que bebia para lá de um certo limite, havia agressões físicas lá em casa.

No entanto, o seu irmão sempre a protegeu, colocando-se à frente dela para que o pai não lhe pudesse chegar. Gritava-lhe para que se escondesse, enquanto levava por ela com uma violência que o deixava deitado no chão. Eram crianças pequenas, muito pequenas.

Mais tarde o pai, talvez consumido pelo remorso, tentou o suicídio. Não correu bem, deixando-o ainda por cá mais uns anos.

Quando finalmente morreu, Melinha tinha doze anos.

Só contou esta história aos filhos, quando eles estavam próximo dos trinta anos. Talvez para os poupar. Ou por não achar necessário.

Ou para não ter de lembrar um período da sua vida que ela já tinha arrumado. Digerido. Ultrapassado.

E, mais extraordinário ainda: Transformado.

Foi nessa altura, em que a revelação foi feita com uma calma que tanto a caracterizava, que os filhos entenderam o amor imenso que Melinha tinha pelo irmão. Quem sabe se não começou naquele período de sofrimento partilhado as genes de um Amor maior que viria a guiar a sua vida? Só ela o poderia dizer.

Melinha cresceu e tornou-se numa rapariga muito bonita. Aliás, foi sempre bonita, com os seus olhos azuis brilhantes e profundos e o seu sorriso tranquilo e radioso. Não estudou para além do 5º ano antigo, mas nem por isso deixou de trabalhar. Tinha jeito para a costura e cedo começou a trabalhar como costureira.

Provavelmente fez muitos dos seus vestidos. Melinha era coquette e tirava partido da sua beleza que em nada passava despercebida.

Dona de uma delicadeza natural, Melinha cedo despertou muitas paixões de rapazes de condições sociais e económicas superiores à dela. Um deles, completamente encantado, tudo fazia para a conquistar.

Mas foi por Carlos, um estudante de medicina, filho único de um casal abastado, com mau feitio e sem grandes preocupações em ser galanteador, que Melinha se apaixonou.

E nem as desconsiderações do pai dele a fizeram vacilar.

Recebia-as com um sorriso e logo as arrumava. Sem rancor, nem dando qualquer importância.

Foi sempre isto que ela fez durante toda a sua vida. Não se detinha a julgar ninguém. Simplesmente não dava importância àquilo que para ela não lhe fazia bem. Talvez viesse da infância. Ou do seu enorme coração que procurava constantemente alimento. 

Por ser tão bonita, foi convidada por um realizador famoso na altura, de seu nome Jorge Bruno do Canto, um dos autores do livro de cozinha Pantagruel,  para participar num filme.

Acabou por fazer dois. Num, tinha uma fala. Noutro, o conhecido “Capas Negras”, apenas desfilava em fato de banho, mostrando toda a sua beleza e magnetismo. Melinha descobriu ali uma enorme paixão, mas Carlos viria a proibi-la terminantemente de seguir aquele caminho.

E ela teve de fazer uma escolha.

Escolheu Carlos.

Se esta decisão teve algum peso na sua vida, os filhos não o sentiram. Melinha escolheu outro amor para ela igualmente grande. E viveu em paz com isso, tudo leva a crer que sim.

O namoro de Carlos e Melinha durou vários anos. Carlos tinha de terminar primeiro o curso de medicina. Conheceram-se, tinha ela 17 anos ele 21, e casaram-se quando Melinha tinha 28 anos e ele 32, em idades muito pouco comuns para a época.

Nos primeiros anos de casados, Melinha surpreendia-se pela sogra descascar a fruta ao filho e tratá-lo sempre com um mimo exagerado.

Carlos era caprichoso e egoísta e Melinha não lhe cortou os hábitos.

Mas conseguia sempre levar a água ao seu moinho, com toda a tranquilidade.

A verdade é que Carlos nutria pela mulher, não só um amor profundo, como uma admiração genuína.

E, por isso, não a proibia quando ela decidia contratar criadas internas que tinham filhos e que, por isso, ninguém as queria. Cuidava das crianças, vesti-as, calçava-as e pagava-lhes os estudos.

Não sendo especialmente carinhosa fisicamente, era-o de outras maneiras. Carlos completava-a na expressão física dos afetos.

E assim, também ele foi abrindo o seu coração de filho único a todo este novo mundo que Melinha lhe oferecia.

Por todo o lado tinha protegidos de quem cuidava e que dormiam em casa dela nas férias. Acredito que existem muitos homens e mulheres hoje que são alguém devido a esta ajuda que Melinha lhes deu numa determinada altura das suas vidas. Praticamente todos o reconhecem e se comovem ao recordá-la.

Carlos dizia que não queria ter filhos. Mas Melinha deu-lhe a volta. A decisão de ser mãe não foi fácil para ela. Teve oito abortos espontâneos e um filho que chegou a nascer, mas morreu com três dias de vida.

Conseguiu levar por diante três gravidezes, mas em todas teve de passar o tempo todo de cama. Carlos revelou-se um pai babado e carinhoso, mesmo com um mau feitio que Melinha sempre contemporizava e desvalorizava diante dos filhos. Ensinou-os que, com calma, tudo se consegue. Porque era assim com ela.

Melinha ia buscar e pôr os filhos todos os dias à escola para que não apanhassem frio, mesmo quando já tinham idade para irem de autocarro.

Fazia-o naturalmente. Tal como fazia com naturalidade ir buscar e pôr a empregada a casa nas férias de Verão para que ela não tivesse de apanhar muitos transportes para chegar a sua casa.

Melinha tinha sempre as portas abertas para todos. Amigos dos filhos, amigos dela, protegidos. Havia sempre lugar para mais um. Não havia ninguém que não se sentisse bem na sua companhia e de Carlos.

Para ela não havia distinções nem de classes nem de géneros. Melinha guiava a sua vida pela alma. Por isso, falava a partir de um lugar que a todos acolhia.

A sua generosidade continuou pela vida fora, com os netos. Ficou com todos eles até irem para a escola aos seis ano e nos três meses de férias.

E todos eles nutrem por esta avó um amor sem limites. Ela tudo fazia para que aqueles meses fossem inesquecíveis.

À neta mais velha, com pouco tempo de vida, foi-lhe diagnosticada uma doença degenerativa que lhe afetaria os músculos. Não iria conseguir andar e a sua vida prometia ser curta.

A filha, desesperada, teve na mãe um apoio fundamental.

Melinha não se conformou com a decisão médica e lutou pela neta sem vacilar um dia. Numa altura em que ninguém conseguia pegar nela, Melinha ia buscar forças ao amor e conseguia agarrá-la com firmeza, sem sequer franzir a cara.

Era ela que levava a neta para a fisioterapia na piscina e punha-se junto dela em fato de banho. Com setenta anos, Melinha tinha uma força de leão.

Hoje, esta neta tem quase 34 anos e faz a sua vida normal, apesar da cadeira de rodas.

Melinha foi uma mulher, uma mãe e uma avó presente, atenta, tranquila, cúmplice, generosa e de uma ternura que, não se manifestando em toque, impunha-se em tudo o que fazia. Da forma como fazia. Ela era assim, não só com a família como com toda a gente.

Há dez anos foi-lhe diagnosticado a doença do Alzheimer.

Durante um ano, Carlos recusou-se a aceitar aquele diagnóstico. Mas depois, quando foi obrigado a render-se às evidências, mudou radicalmente. E todo o amor que sentia pela mulher veio ao de cima. Deixou para trás o filho único e revelou o homem generoso e imensamente reconhecido.

De tudo fez para que Melinha tivesse o melhor tratamento. Pedia às empregadas que fizessem os pratos de que ela mais gostava. Tratava para que viesse à sala sempre impecavelmente arranjada e bonita, apesar do seu olhar ausente. Punha a tocar as suas músicas preferidas. Lia para ela. Organizava jantares de família para que Melinha pudesse estar sempre com todos aqueles a quem ela mais amava ao seu lado.

E ninguém falhava.

Há quatro anos, Carlos adoeceu e acabou por morrer. Não sem antes assegurar que a empregada que sempre tomara conta de Melinha iria continuar a fazê-lo até ela partir. Garantiu todas as despesas e condições para que ela nunca tivesse de ir para um lar.

Só depois pôde partir em paz.

Neste momento, Melinha está em casa da filha mais velha, com a tal empregada e com a neta deficiente a quem ela tanto ajudou. Os filhos revezam-se para cuidar dela e os netos visitam-na todos os dias. Cada um deles tem uma semente preciosa que cresceu e se manifesta agora em toda sua pujança, na generosidade natural com que cuidam de Melinha.

Mesmo que a memória dela não seja mais capaz de reconhecer ninguém, todos a quem mudou a vida guardam-na bem fundo nos seus corações.

Os rastos que Melinha deixou são muito mais do que memórias boas. São testemunhos. São marcas bem gravadas. São referências valiosas arrumadas em cada coração.

Até há muito pouco tempo fazia festinhas nos braços dos filhos e dos netos. Provavelmente a doença apaga a memória, mas não os afetos. Tinha um boneco que até há uns meses abraçava e acarinhava. Agora, repousa ao seu lado.

Recordarei Melinha sempre com os olhos azuis mais bonitos que alguma vez vi. Com um sorriso que aquecia uma vida. Com uma tranquilidade aconchegante e tão natural. Fazia com que a vida parecesse fácil. Como tão fácil era falar com ela.

Quando Deus decidir leva-la, o Céu não ganhará mais uma estrela.

Ganhará a Melinha. E tenho a certeza que todos nós que a conhecemos e que guardámos dela um pedaço do seu enorme coração, vamos conseguir vê-la sempre que precisarmos de fé nas nossas vidas.

(texto com uns anos. Melinha partiu pouco tempo depois de o ter escrito. Rodeada de amor, tranquilamente. Como tanto merecia.)

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